Diário da louça suja – Parte II ou O Banho de Socorro

Enquanto a louça era tomada pelo complexo de rejeição, Socorro estava de pé no banheiro. Era dia de banho. E eram raros. Ela estava esgotada, mortalmente esgotada, e tão imunda quanto a pia da cozinha. Continuar lendo

Diário da louça suja – Parte I

Algo perigoso pairava no ar. Estavam todas irritadas, tomadas pelo medo de viver até o fim de suas vidas numa pia imunda. Pois ao contrário do que os humanos pensam, as louças escutam tudo, não existe inconsciência no mundo das louças. Continuar lendo

Não foi possível conectar-se à esta rede

Vivo apenas neste quarto. Entre uma cama de solteiro, um lençol velho, um espelho amarelado e uma escrivaninha que funciona como mesa e penteadeira. Eu estou sem internet desde o mês passado (ou talvez mais, não sei bem) e há duas semanas sem luz. É por isso que dei para passar o tempo na janela que dá para a rua principal do bairro. Continuar lendo

Um encontro e dois cenários

Camila custou, mas deu uma chance para o aplicativo de paquera. Ácido Acético Etílico Da Silva era o nome do pretendente. No seu mundo ideal, falariam de antigas civilizações, dos anos Bolsonaro, dos memes, dos intelectuais exilados em Paris, passando ainda pela última blogueira que foi cancelada e pelo menino Neymar, um injustiçado. “Ou qualquer coisa faço uma cena que ele some”, calculou. Continuar lendo

O elevador do Esistenza

Desertos mentais instauram-se com bastante frequência durante as viagens de  elevador do condomínio ‘Esistenza’. É nesta caixa  absolutamente doida e irreal que Juscelino e Sebastião se encontram. Continuar lendo

Socorro, a última lúcida

Socorro espiava da janela, que se diria jaula. Cinco minutinhos apenas, pois qualquer tempo perdido poderia ser uma chance de sonhar. E quem poderia dar conta dos sonhos de Socorro? Assim, ocupava seu tempo com numerosas obrigações rigorosamente baseadas em dez mandamentos estampados em locais estratégicos do apartamento. Continuar lendo

Rosebud

Na biografia de Charles Schulz, alguns momentos são dedicados à sua fascinação por Cidadão Kane, de Orson Welles. Em 1941, o filme chegara ao cinema Park Theatre em Saint Paul, e um Schulz eletrizado imediatamente reconheceu sua grandeza. Continuar lendo

E-mail para Deus

Querido Deus,

Esgotei todos os recursos para passar o tempo. Assombrei velhinhas. Atrapalhei o sono do meu ex-chefe. Provoquei confusões. Espalhei espantos. Tretei nas redes sociais. Fiz papelões. Muitas vezes me rebelei. Continuar lendo

Graças a Darwin

Quer conhecer o inferno? Coloque doze pessoas morando numa casa de dois quartos e você terá uma visão clara do ambiente onde vivem os demônios. Foi por isso que Maria José cismou: “quero ser freira”. Não por vocação. Mas porque buscava o silêncio dos conventos. Justificou com uma evidência fortíssima. Continuar lendo

É essa a notícia

– Milena! – exclamou Ricardo, via FaceTime.

PRONTO! E ele continuou sem muita enrolação:

– É difícil, mas eu preciso ser honesto com você, comigo, com todos que estiveram conosco nesses últimos sete anos.
– Vai terminar o noivado?
– Sim. Continuar lendo