Ai que vontade de um Picolé de Luxu

Nestes três anos testemunhamos no Brasil a mais pura selvageria, momentos de extrema violência e relatos trágicos de pessoas que conhecemos e desconhecemos. E agora, mesmo em face das mais terríveis provações, muitos ainda encaram os movimentos da política com uma visão cartesiana. Não só ignoram os traços que nos definem como seres ambivalentes como estimulam cheios de confiança um dualismo besta, infantil.

Exponho as linhas acima para introduzir, por simples desabafo, as reações contrárias a chapa Lula-Alckmin. Elas também são um reflexo dos processos autoritários que doutrinam muitos com base na tal “coerência”. De repente aparece lá um tuiteiro “ah, mas você não está sendo coerente pois em 1879 fulano traiu o Lula, já esqueceu??????”. Esse cidadão, que se acha fiel e de memória infalível, é um cidadão autoritário. É meio como o tal do Bolsonaro. Um imbecil que sabe, como ninguém, lidar com a desinformação e com a falta de conhecimento como arma. É um coerente.

Quando falam que falta “coerência” na política esquecem que política é uma dança. O que muda é a música e não há problema nisso. A coerência, termo usado como garantia de moralidade, de fidelidade, também é um tipo de autoritarismo. Muitos de nós nos tornamos vítimas de pensamentos prontos com base na cobrança da tal coerência. “Ah, mas o PSDB isso e aquilo”. E o bom e velho “Já votei no PT, FIZ CAMPANHA. MAS FUI TRAÍDO. JAMAIS PERDOAREI O LULA”. Como se Lula fosse, sei lá, um ex-marido que fugiu de casa com a vizinha novinha, envenenou a mulher, jogou na marginal Pinheiros, ganhou um seguro de vida bilionário e agora organiza grupos de viúvos no clube paulistano. Que drama. O nome disso é medo. Medo de assumir que ideias mudam. É vergonha de mostrar para o grupo de amigos que é possível assumir uma nova postura sem ferir seus valores.

É a mesma coisa de quem apoia Lula, mas aponta o dedo para eleitores que aceitam um possível Geraldo Alckmin como vice. Falso moralismo. Entre republicanos, o que é errado numa época pode ser certo em outra. Um picolé de Xuxu, por exemplo, combinado com dadinhos de tapioca pode agradar, sei lá. Não foi uma frase bem bolada, mas deixa aí…

Retomando… o que intransigentes fazem ao cobrar a infeliz “coerência” é estimular a estagnação. Anthony Burgess, no ensaio A Condição Mecânica, tem uma passagem que diz que o certo e o errado oscilam com muita frequência. Claro, o contexto ali é outro. Mas estou aplicando na política.

Termino esse texto de uma maneira muito irregular e inconclusiva. Simplesmente porque não sei. O que tento levar em conta são contextos históricos diferentes. E não há nada aqui que se deva levar a sério além da máxima que carrego comigo: Deus me livre de ser coerente.

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