Vontade de escrever sobre Leandro Lehart

Leandro Lehart aguarda sua nomeação no Diário Oficial para falar com a imprensa sobre o novo cargo: diretor do Centro Cultural São Paulo. A informação já foi confirmada pela Prefeitura, mas quem acompanha sua carreira sabe que o músico trabalha com exatidão. Leandro, mesmo à frente do tempo, nunca se adiantou para acompanhar modismos.

Em 2020, no auge das Lives que deixaram muitos de nós inchados de tanto álcool, Leandro respondeu aos fãs que o Art Popular não realizaria nenhum show no Youtube. Não tenho provas, pois ele disse isso durante uma mini-live no seu Instagram pessoal na qual presenciei. A justificativa: a banda estava com muita coisa nova pra lançar. Não mentiu. Em dezembro, veio o esperado álbum de releituras baseado no musical “Os Bambas”, uma obra de ficção. Na narrativa, músicos importantes entre as décadas de 1960 e 1970 vivem o auge da carreira enquanto se relacionam com cantores que construíram a cena do samba no Brasil – desde Donga, passando por Pixiguinha e Noel Rosa. Denílson Pimpolho, por exemplo, vive o baiano Maré Cheia, que se diz um dos inventores da roda de samba. Leandro interpreta Kid Cavaquinho cujo sonho é ser como Jimi Hendrix. Pois é… as coisas que o Leandro se envolve são assim mesmo. Grandiosas.

Da Zona Norte de São Paulo para o mundo

Como jornalista, me sinto na obrigação de apresentar o homem para quem não conhece, talvez os mais jovens, adultos pouco informados ou simplesmente desinteressados da vida e do samba.

Leandro Lehart é um dos fundadores do Art Popular, conjunto de samba formado na zona norte de São Paulo em meados de 1984. Com o nome inspirado no verso da música “Coisa de Pele”, de Jorge Aragão, a história do Art Popular não foge a de outros grupos. Uma turma de amigos que se reunia todos os finais de semana para tocar. Em 1996, o Brasil foi abençoado pelo disco Temporal. Já o seu conhecido “disco branco”, na minha humilde opinião, é maior que o White Album dos garotos de Liverpool. Intitulado Samba Pop Brasil II (1998), estão lá clássicos como Agamamou e Quando você me Beija.

Leandro saiu do grupo em 2001, voltando majestosamente na turnê do álbum Ao Vivo Sem Abuso, de 2003. Naquele ano, o Iraque foi invadido por uma coalizão militar multinacional liderada pelos Estados Unidos sob o governo de George Bush.

Bagdá chorando e você na calçada

O compromisso de Leandro com a geopolítica e a realidade do mundo sempre esteve presente nas suas composições. E com uma elegância peculiar, nas entrelinhas, como todo grande poeta. Focarei na letra aparentemente simples de SEM ABUSO. “Um dia você diz pra mim que me ama, me adora”. Ok, um relacionamento instável, sigamos. “Que não se interessa. Por ninguém lá fora. Pura armação, pressão”. Relação meio abusiva, sigamos. “Da cabeça de quem um dia”. Essa parte eu confesso que não entendi, mas é que o Leandro respeita muito o outro, a interpretação de cada um. Creio que o objetivo desse trecho está vinculado ao viés de confirmação – para cada um encaixar sua vida na letra antes do grande momento da música. Gênio.

“Bagdá chorando e você na calçada”.

Anos atrás enviei uma mensagem privada para o ídolo, via Instagram, explicando que admirava muito seu trabalho e precisava saber se a referência tinha mesmo sido o Iraque. Como gênio acessível, respondeu prontamente que sim. Como fã inconveniente, não como jornalista, fiz uma outra pergunta, dessa vez sobre política nacional. Leandro sabiamente ignorou. Achei o máximo pois confirmei minha hipótese de que eu não estava tratando com um artista impulsivo. O homem é um profissional que sabe onde pisa. Voltando à letra de Sem Abuso, é isso, né… monte de gente morrendo e a gente brigando por coisa besta.

Nem tudo é sobre Chorão e Camelo, irmãos…

Não é que mudei de assunto, tem um gancho, calma. Mas até hoje se fala na treta Chorão e Marcelo Camelo, considerada um “dos grandes momentos do rock nacional”. É o meu caso. Com o objetivo me auto-afirmar, faço questão de dizer que estava no festival Piauí Pop onde as bandas se apresentaram após o conflito. Era estagiária do caderno de Cultura do Jornal O Dia. Pouco se fala, no entanto, do que aconteceu em 2003 entre o Art Popular e o LS Jack no aeroporto Santos Dumont. A briga teria começado porque, supostamente, uma banda teria falado mal da outra. Como prezo pela parcialidade, julgo que o Art Popular tem mais é que falar mal de quem quiser. Conclusão: paz. Assunto superado, finalizo com um trecho de Sem Abuso. “Senta aqui. Pensa bem. Pode crer”. Isso é muito Leandro. Complementado pelo reforço do quanto “o amor é maior que tudo”. Do que eu e você, você e eu.

Escreveria muito mais, pois presenciei muitos shows do grupo onde pude confirmar o nível de profissionalismo de Lehart, mas cansada e ainda tenho que trabalhar. Viver é sonhar, ôa, ôa. Aqui foi uma rima ruim deliberada. Não é o caso de Leandro.

Bom fds. Bjs

Cacau

4 comentários em “Vontade de escrever sobre Leandro Lehart

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  1. De um cuidado de falar de quem não só música, mas está de olhos atentos e ouvidos para o que mundo a fora, ou melhor também com as problemática do Brasil. É uma Ary Popular, fazer música e olhar para outro. A vc jornalista o parabéns por está matéria e a Leandro Learht pelo ser humano que és e claro a sintonia total desde grupo. Sou fã desde , bom o tempo da gira cassete. Bjs

  2. Olá Cacau, quero mto falar com vc, sou produtora do LL, consegue me mandar seu e-mail?
    Beijos e parabéns pelo belo texto

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