Sinatra, Elvis e os outros

O celular tocou às 2h da manhã.
– Pula pra cá.
– Quem está falando?
– Escuta, tem um casal aqui no Cantigas dizendo que o Elvis é melhor que o Sinatra.
– Filhos de uma puta!
Vinte minutos depois e Alfredo estava no bar pronto para o embate. Nunca tinha visto aquele casal ali. Ele e Rodolfo, por outro lado, se reuniam toda sexta, quando abandonavam todas as fontes de informação para beber, fumar, beber mais e cantar umas músicas da VOZ – não necessariamente nessa ordem.
Alfredo já chegou perguntando, em tom de acusação.
– Então vocês acham que Elvis foi maior que Sinatra?!
– Sim.
– Magrão, traz minha dose sem gelo.
Os opositores, na casa dos 29 anos, vestiam camisetas com cara de bichos. Alfredo puxou um guardanapo e desenhou uma tabela com duas colunas. De um lado escreveu ‘Frank’. Do outro ‘Elvis’. Abaixo, quatro linhas com as seguintes categorias: Voz; Performance no palco; Performance no cinema; Estilo.
– Ambos são barítonos. Então isso é bastante equilibrado – soltou Rodolfo.
A oposição, que não tinha nome, reagiu.
– A voz de Elvis é muito mais extraordinária. São várias vozes numa só.
– Errado. Frank Sinatra tinha uma dicção perfeita. Sua voz fluía sem esforço.
– Elvis era capaz de cantar qualquer coisa.
– Quem além de Sinatra conseguia cantar duas ou três estrofes antes de respirar novamente? Elvis?!
O outro lado argumentou. Diante da situação, Alfredo marcou um empate na coluna ‘Voz’. Passaram para a categoria seguinte.
– No palco ninguém superava o Rei. Isso é indiscutível.
– Que absurdo. Tudo deve ser discutido com exaustão. – defendeu Rodolfo – Sinatra ganha, porque, ao contrário de Elvis, melhorou com a idade. No momento em que Elvis morreu, ele era apenas uma caricatura patética dele mesmo.
Alfredo, emocionado, aplaudiu o colega e complementou.
– Elvis, com todo o respeito, morreu, literalmente, na merda.
– Discordo. A categoria não é válida pois ninguém aqui foi num show dos caras.
Concordaram nesse sentido e pularam para a coluna ‘Estilo’, onde aconteceu mais um empate.
– Reconheço que Elvis foi um rapaz autêntico. Mandem a próxima.
– Performance no cinema!
– Você não vai querer argumentar sobre, né?
A oposição achou melhor não ir contra os fatos, mas também não desistiu por completo.
– Já sei o que derruba Frank.
Silêncio no bar.
– Frank era falso. Elvis era real.
Rodolfo e Alfredo chamaram o garçom ao mesmo tempo.
– Magrão, minha dose sem gelo.
Respirou. Acendeu um cigarro. Olhou para as estrelas.
– Escutem aqui, meus queridos. O único falso aqui é você com essa camisetinha rídicula de banda indie. Ninguém cantou ou cantará músicas sobre a solidão, sobre a existência humana, sobre o abandono, melhor do que o Sinatra. O homem eclipsou repetidas vezes. É o chefe dos chefes. Não dá pra competir, entende?
Magrão chegou com o uísque e se meteu na conversa.
– E aquele tal de David Bowie, hein?!
Silêncio. A pergunta doeu durante vinte minutos até um garoto passar cantando “ch-ch-ch-changes”. Depois veio a conta.

Crédito da imagem: montagem tosca criada pela autora do texto.

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