Socorro sai da janela para ver Clinton, Bush e Obama – trecho

No dia 20 de janeiro, uma cerimônia tirou Socorro da janela. Era a posse de Joe Biden e Kamala Harris. “Preguiça de americano, mas o filho da puta do senador não vai se atirar hoje da janela”. Então sentou e assistiu Clinton, Bush, Obama. “Uns santos, mas quem sou eu?”. Para esses casos, usava a escala Tarantino de moral. O que menos mata, merece a torcida. Mas sua linha de raciocínio logo fez uma curva. “E a Monica Lewinski, hein?!” Deu um Google e caiu num TED. Intitulado “O preço da vergonha”, registrava mais de 25 milhões de reproduções.

“Fui a paciente número zero a perder de forma quase instantânea a reputação pessoal em escala global”.

Monica estava maravilhosa para quem passou pela tempestade de mídia ocorrida no final dos anos 1990. Aquela que ficou conhecida como o caso Lewinsky e não como o caso Clinton. “Desculpa, Monica. Mas os tais linchamentos compraram esse apartamento aqui. Mas fique sabendo que trabalho apenas com pessoas irrelevantes e comentários burros de aspirantes a vítimas que defendem um tal ‘contraditório’. Você, sabe, Monica, aqueles que lançam discussões nas redes sobre vender órgãos e dizem que estão sendo linchados, quase amarrados em postes. Aqueles que fazem comentários sobre negros e depois estão empregados em redes de televisão. Aqueles que ganham bem mais do que ganharíamos se, por acaso, tivéssemos um pau”. Socorro riu. Agora Katy Perry cantava na televisão. Aqueles fogos pareciam o vírus da Covid. Aquele desenho que todos os sites costumam usar para representar o Sars-CoV-2 – uma esfera cinza com pequenos triângulos vermelhos grudados. Nada da vacina no Brasil. “Muito tarde pra mandar um zap pro Vasco? Quero garantir que esse suicídio vai dar certo. Vou pedir pra ele trazer um cigarro…”

Perto do abajur, um Aedes aegypti dançava. Com um tapa seco, Socorro esmagou o Aedes. Assassinou o Aedes.  “Olha lá, evitei uma dengue hemorrágica no vizinho de baixo”. Mas a morte do Aedes acendeu algo diferente no seu coração. A de que alguém poderia ter sido salvo por ela. Isolada há quase um ano, não tinha percebido que isso ja estava acontecendo. Sem aplausos. “Pode subir, Vasco!”

*Estas páginas fazem parte de um romance em construção e são liberadas aleatoriamente conforme o humor da autora.

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