E agora o navio tinha passado

Existe um prazer na raiva. Sem ela, você não consegue identificar que a paixão é que sempre salva o dia. Ela é maior que qualquer coisa. Que qualquer cara chato que complementa o que você fala. Que qualquer babaca com síndrome de pequeno poder. Isso a gente passa por cima. Mas na pandemia a raiva é um sentimento que pesa demais. Há, na coleção de aforismos de Kafka, um trecho ao qual tento me permanecer fiel: “Pelo próprio ato de viver, ele embaraça o seu caminho. O embaraço, porém, dá-lhe a prova de que ele vive”.

Era 2019. Com o começo do governo Bolsonaro, os contratos com as agências que forneciam serviços para a Secom foram cancelados. E anunciados pelo próprio presidente via Twitter no dia 23 de janeiro. É normal não renovar contrato, mas o governo Bolsonaro tem sua própria maneira escusa de fazer comunicação. Já era esperado e fiquei desempregada. O engraçado é que, doze meses após o anúncio, no dia 15 de janeiro de 2020, o chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Fabio Wajngarten, foi acusado de receber dinheiro de emissoras de TV e agências de publicidade que, em sua função no Planalto, ele contratava. Que bom que a corrupção acabou!

Em março de 2019 consegui me recolocar. Era jornalismo. O que mais amo fazer. Era um novo formato. O que achei estimulante. E era home office. Eu já estava acostumada com o esquema. Trabalhei assim entre 2015 e 2018 avaliando a imagem do Brasil no cenário internacional. Não há nada que não possa piorar – no sentido de noticiário. O editor foi legal comigo e não dava muito pitaco nas minhas escolhas. Viver era uma editoria um pouco mais densa, mas tinha ciência, eu amo ciência. E cultura é o que mais consumo. Acordar às 6h também não seria um problema. O salário oferecido não era ruim, mas também não era o suficiente para bancar, sozinha, o custo de vida em São Paulo. Natural sendo uma startup. Natural sendo mulher. Poucos são os jornalistas que tem o privilégio de ser bem pagos para trabalhar num lugar apenas. Em junho comecei um outro trabalho, dessa vez CLT, como coordenadora de conteúdo e análise de uma das marcas mais queridas do Brasil. Fiz colegas de trabalho. Voltei a usar transporte público. Voltei a me perder em trem. A chegar atrasada. A chorar em banheiro. Olhando agora, aquele foi até um bom ano… Depois do expediente, sentava na minha escrivaninha e voltava ao jornalismo. Era minha rotina antes da pandemia. Muitos perguntavam como eu dava conta. Eu não dava. Mas as contas davam em mim. Não tinha opção, não tinha escolha. Até que chegou março de 2020 e voltei 100% ao home office. Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos. As festinhas pelo Zoom, o espírito solidário…as pessoas bebendo cada vez mais. E o começo do meu fim.

Sou TDAH com tendência para o comportamento hiperativo-impulsivo. Isso quer dizer que, em situações de estresse, posso falar coisas sem pensar antes nas consequências ou sem ponderar se o momento é propício para tal. Faço tratamento, claro. E levo a sério. A mente num TDAH é acelerada e, no meu caso, a criatividade acaba se sobressaindo para compensar a falta de foco. No jornalismo, o senso de oportunidade e intuição sempre foram o meu forte. Essa desorganização mental coloca minha mente numa condição eterna de improviso, buscando soluções diferentes das óbvias. Para alguns que convivem comigo, os metódicos, pode ser um tormento. Para outros, os flexíveis, os que confiam, é amizade e resultado na certa. Quando encontro parceiros de trabalho que entendem a maneira como raciocino, mandamos bem demais. Foi o caso do Fernando, do Edu e da Gabi, parceiros na MSP. Foi o caso da Erica. Em setembro, escrevemos um longo texto sobre o retorno às aulas. As escolas nunca foram prioridade aqui. De um lado, pesquisas extensas indicavam que crianças corriam um risco relativamente baixo de desenvolver casos graves de Covid-19. De outro, um relatório da Academia Americana de Pediatria indicava que os casos cumulativos nos Estados Unidos dobraram naquele mês. A reabertura física de escolas poderia acelerar esse aumento estimulando a disseminação entre adultos. Era um texto muito importante porque a realidade é bem diferente dentre as públicas, claro. E porque os efeitos serão sentidos a longo prazo, sobretudo no Brasil, um dos países mais afetados e um dos mais desiguais.

As coisas, os dados, as curvas, as prioridades, o humor, mudam o tempo inteiro na pandemia. Imagine tudo isso na cabeça de uma criança impedida de frequentar a escola. Finalizamos com um trecho escrito por Julián Fuks.
“O duro impacto dessa privação geral que impomos aos nossos filhos já dá evidentes sinais. A pandemia tem sido responsável por desapontamentos seriais, por um ciclo interminável de ilusões e desenganos, de esperanças e decepções. Se os adultos já estão abatidos e desnorteados, o que pensar das crianças, com sua vaga compreensão do tempo, com sua impossibilidade de assimilar a fundo a razão dos impedimentos?”

Tive uma crise de choro quando terminei.

Ser vulnerável, chorar, não ter respostas, não é bem “permitido” para jornalistas. É “preciso” mentir para si mesmo, repetir mentalmente, como um mantra, que aquilo não é sobre você, que “amanhã passa”, ou pular automaticamente para outro assunto, enganando deliberadamente o cérebro. No caso da pandemia, não deu pra enganar o cérebro. E nem teria como. Os remédios para estabilizar o humor foram reforçados. Aproveitando a deixa, alguns adoram dizer que não tomam medicamento pra depressão porque tem medo de parar de sentir. Besteira. Você só volta a ser o que era. É provável que sem a medicação eu nem conseguisse escrever. Eu precisava chorar e medicação nenhuma impediu. E foi assim quando soube que as crianças estavam desaprendendo a ler e escrever. Chorei por elas. Escrevi sobre elas. E agora tento alfabetizar o Guilherme, 6 anos, estudante da escola pública. Não estou mandando mal, não. Ele às vezes se estressa, mas tem aprendido muita coisa com uns jogos que fazemos juntos.

No dia 2 de outubro de 2020, sofri um ataque de pânico. Estava sozinha, em casa, escrevendo, quando meus dedos ficaram rígidos. O coração disparou. Suava….Com medo de dormir e não acordar, tomei um café e passei a noite em claro. Foi uma noite de terror. Naquela semana, Quino tinha morrido. A Argentina perdia seu maior cartunista e eu tinha recebido uma ilustração comovente: Mônica consolando Mafalda. Lembrei do meu pai, morto em 2004. Naquele dia, ou noite, comecei a editoria de Viver de um jeito não-convencional, com um alerta. Não era um tom que agradava todos, mas existe algo que valorizo muito e se chama “tom pessoal”. Dizia “a pandemia não acabou, o número de mortes ainda é alto, tragédias pessoais não são apenas números e muitas perguntas seguem sem respostas”. Naquele dia, abri Cultura falando da tendências de capas de livros com grandes ilustrações de rostos femininos. Foi uma boa nota. Eram capas desenhadas especialmente para novas autoras. Uma delas, tenho certeza, será um dia desenhada pra mim. Também nesse mesmo dia, Donald Trump voltou aos holofotes por conta do teste positivo para Covid. Eu não estava concentrada pela manhã. Não entendia o que estava acontecendo. Entorpecida pela medicação, abandonei a edição com palavras bruscas. Acabou ali minha colaboração com a newsletter.

Em novembro de 2020, senti de maneira muito intensa que a verdadeira história sobre a pandemia nunca será escrita. Números exatos e relatos sinceros ficarão perdidos em meio às mentiras que o governo espalha. Há uma parte em O Senhor das Moscas que reproduzirei aqui.

O mundo, aquele mundo compreensível e obediente à lei, desmoronava. Primeiro era uma coisa, depois outra; e agora — o navio tinha passado. Golding, William. Senhor das Moscas .

Hoje, janeiro de 2021, vejo as coisas de outra maneira. Essas histórias serão contadas. O tempo, o mesmo que nos dissolve, carrega consigo um mistério: o de que escrever, contar histórias e fazer paralelos com batalhas internas é também uma experiência radical de renascimento. O meu ato de coragem.

*continuação do texto anterior.

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