Das dores de cobrir uma pandemia

Até bem pouco tempo atrás, dedicava horas da noite, e algumas das primeiras horas da manhã, à pandemia. Era para uma newsletter. Ao contrário de outros formatos de distribuição de notícias, newsletters não contam com redações, nem com rodízio de jornalistas. Ou seja, diariamente, eu lia tudo que estava ao meu alcance, buscava tudo que não estava, sintetizava, contextualizava e finalizava num formato razoável. Ler por ler já exige concentração. Mas só ler é diferente de ler, escrever, sintetizar e editar.

E era um assunto novo sobre o mesmo assunto todo dia. Um dia, máscaras não eram necessárias. No outro, as células T eram a salvação. Uma semana depois e “mais jovens internados”, contrariando a máxima sobre os perfis de risco. Claro, referências chegavam de todo lugar. Mas era preciso escolher algumas. Limitar opções. Nossa mente não é capaz de absorver tanta informação num espaço curto de tempo e as informações sobre a Covid-19 mudavam num ritmo frenético. E não só no Brasil. Enquanto os números aqui cresciam, num tempo em que a testagem era baixa, a população negra nos Estados Unidos registrava taxas desproporcionalmente altas de infecção e mortalidade pelo novo coronavírus.

Claro, os assuntos foram se sobrepondo. Cultura, editoria da qual eu cuidava, foi impactada fortemente pela pandemia. A curadoria, que antes era um respiro, passou a ser outro soco no estômago. Diário. Artistas sofrendo. Museus fechados. Lançamentos cancelados. E enquanto Bolsonaro e Mandetta baixavam o tom, um outro estudo dizia que apenas 6% dos casos de Covid-19 haviam sido detectados no mundo.

Uma das minhas preocupações, a principal, era entregar algo que não normalizasse a tragédia que vivemos. Estabeleci que começaria com o número de mortes e contaminados nas últimas 24h. Muita gente não entendia. Ora, se foram registrados, pode ser que sejam tendenciosos, certo? E pouca gente sabia responder. Para jornalistas, era claro: não era possível determinar a causa da morte no mesmo dia que a pessoa morreu. Mas se não estava claro para o leitor, é porque tinha algo de errado. E os dados foram se tornando cada vez mais complexos. E os jornalistas cada vez mais confusos, cada vez menos dispostos a assumir que estavam lidando com o desconhecido. Mas era preciso entregar. Nessa fase, conversei muito com conhecidos que não tinham relação com a imprensa e todos demonstravam ceticismo com a cobertura. “Se os leitos não estão cheios, significa que não é tão grave assim. Isso a imprensa não explica”. A resposta também era simples para quem lidava todo dia com informação: os leitos não estavam lotados porque as pessoas estavam cumprindo o isolamento. Mas a verdade é que essas pessoas, as isoladas, nunca foram aplaudidas. Elas foram esquecidas. Muitas culpadas por “fiscalizar” quem precisava sair para manter a “saúde mental”. Essas pessoas não sabem, e jamais saberão, que também salvaram vidas.

Daí veio abril, marcado pelas Lives, pelos aplausos. Pelas fotos do pôr-do-sol. Nós, ainda cheios de esperança, tentando produzir beleza das janelas. E eu me perguntava como é que conseguimos ver qualquer tipo de beleza enquanto um movimento genocida, um pesadelo da história, ameaçava o avanço da ciência. Abril também foi marcado pela estratégia de forçar a demissão do então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Uma entrevista ao Fantástico teria sido o cúmulo. No dia 16, a demissão foi anunciada. No mesmo dia em que a primeira morte por Covid-19 no Brasil completava um mês. Em trinta dias, foram 1.924 mortes. Em tamanho subestimado. Com a demissão e um presidente visivelmente exausto, as panelas voltaram com tudo. Nelson Teich foi então nomeado. E foi igualmente cauteloso a respeito do uso de cloroquina. Sua saída seria questão de tempo.

Nessa época, fui abatida pelo medo de perder a sensibilidade. A superexposição de informações e dados provoca esse tipo de reação em jornalistas. Ciente disso, me protegi. Passei a ler os relatos dos familiares que perderam entes queridos. No silêncio, chorava por eles. No fundo, estava protegendo a sensibilidade jornalística que sempre prezei. Não sei se foi uma boa ideia.

Daí veio maio. Começou com Jair Bolsonaro se juntando, novamente, a uma manifestação que pregava o golpe de Estado. Gritou palavras de ordem. Incentivou ataques à imprensa. Muitos deram murros em jornalistas. No dia 4 de maio, o Brasil registrava 101.147 infecções confirmadas e 7.025 mortes no total.São Paulo via a doença avançar entre jovens, com o salto da proporção de óbitos desse grupo de 14% para 26% em um mês.

Em junho, o Ministério da Saúde impôs um apagão de dados. Não constavam mais no site oficial o número total de pessoas infectadas no país desde o início da pandemia, nem o acumulado de óbitos provocados pela Covid-19. Após forte reação, o governo anunciou um recuo. A imprensa fez então um esforço para relatar os dados que mais se aproximavam da realidade. Ainda eram muitas curvas. Daí veio a média móvel. Era a mais simples de compreender.

No dia 23 de julho, após relatar as constantes mudanças e incertezas sobre a pandemia, o editor da newsletter concordou em abrir a edição com um toque mais pessoal. Dei minha contribuição. “Seja no relato diário de dados, nas experiências pessoais ou na percepção particular de mundo, parte de nosso desafio é fazer a leitura correta de uma realidade em constante mudança sem normalizá-la. E é difícil. Às vezes parecem só números que vão crescendo um dia após o outro. Os números têm significado. São vidas perdidas, tragédias pessoais que jamais serão entendidas completamente quando não estamos inseridos nelas”.

Nessa época, eu já estava sofrendo com pesadelos. Eram diários. Alguns deles chegavam a impressionar pelo realismo. Eram covas. Caixões lacrados. Morte. Morte. Morte. Foi quando comecei a sentir arranques durante a noite. Eram espasmos incontroláveis. E passei a ter medo de dormir. Os espasmos assustavam demais. Com a falta de sono, veio a irritação. Com as cobranças, a sensação de que meu trabalho estava sempre ruim. Com as informações sempre mudando, vieram os tremores e a ansiedade. Veio o choro sozinho na noite. O medo de dormir era também o medo de não acordar. Então passei a usar remédios.

Continua…

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