Procura-se Socorro – primeiras páginas

Era março de 2020 e uma mensagem no grupo Fofocas da TV dizia: “Nós fomos criados na leptospirose. Esse vírus não é nada pro brasileiro”. Mas Socorro estava mais preocupada em encher o seu copo. Estava ali, no décimo quarto andar do condomínio Ezistenza, de onde controlava pelo menos vinte grupos protegidos por criptografia. “Socorro, 36 anos, hater profissional com experiência em governos e celebridades”. Esta seria a maneira mais simples de descrevê-la profissionalmente, mas nada é tão simples assim. “Maria do Socorro Veiga, jornalista especializada em tecnologia, colunista da Folha e fundadora da Reputation Brazil”. Esta seria outra maneira de descrevê-la profissionalmente, mas nada é tão simples assim. É válido ressaltar que a repetição sobre o simples assim foi proposital. Alguns leitores, na ânsia de desmerecer o narrador, logo nós, pobres coitados, desconhecem os recursos de intensificação. Mas essa história não é sobre mim. Voltando à tal start-up mencionada, Socorro cuidava de pelo menos quatro contas grandes. Um youtuber nordestino. Um ator mirim que agora se dedicava ao streaming. Um jornalista em cima do muro que vivia sendo cancelado. E um cantor sertanejo que defendia as ideias do atual presidente do Brasil. Mas voltaremos à Reputation, vulgo lavagem de dinheiro, em outro momento da história.

O dia no qual estamos, no qual Socorro estava, ou está, pois o tempo não interessa muito, é desconhecido. O que importa é que ela espiava as janelas, que se diriam jaulas, do condomínio que se erguia à frente, o famoso Cinderela. De lá, Socorro exercia um certo tipo de superioridade de todos os seres vivos, incluindo os que passavam pela calçada. Era um posição acima, rara, de quem observa os outros como figuras menores. Estava, pra variar, acompanhada de um copo, o preferido dela, de uísque. Baixo, fino, parceiro. Na televisão, uma bola furada de espinhos circulava. “Brasileiros são resgatados de Wuhan”, anunciava um jornalista, enquanto Socorro sentava à cavalo numa cadeira, posicionando-se num ponto cego. “Vou ficar apenas alguns minutos”. Mas cinco minutos não era pouca coisa para uma mente fértil e entregue ao álcool. A história, naqueles cinco minutos, era a história de uma rachadura que atravessava o prédio. Ia do primeiro ao último andar, como um raio, sem achatamento.

A Rachadura jantou no apartamento 32, onde assistiu Parasita, vencedor do Oscar. “Prefiro Bacurau”, concluiu o morador. A rachadura depois seguiu para o 82, onde jogou baralho com Dona Olga. Dispensou o quinto andar, onde um jovem casal tirava selfie enquanto Joe Biden, ao fundo, era escolhido para disputar a eleição contra Donald Trump. No sexto, a rachadura cumprimentou as crianças. Os moradores das janelas não mencionadas aplaudiam qualquer coisa. Outros acompanhavam um programa de televisão com pessoas confinadas. Um deles, absorto na noite, mirava a lua. “Nunca tinha percebido como é linda a lua daqui. Obrigada ao vírus”. No nono, Socorro não conseguiu entrar. Todas as janelas ali estavam fechadas.

Foi quando a ponta do baseado queimou seu dedo e uma das cortinas do 92 sumiu para a entrada de uma mulher nua. Socorro foi instantaneamente atraída por ela. “Tenho quase certeza que conheço de algum lugar”. A mulher fumava um cigarro, os cabelos soltos, aparência leve, olhando placidamente para o nada, como se os horizontes não existissem. Seria uma cantora conhecida pela sofisticação? Uma atriz de cinema? Por mais que parecesse íntima, Socorro não conseguia reconhecer sua figura. Mas conhecia de algum lugar, não tinha dúvida. Abriu então a janela num esforço para que a vizinha a percebesse. E não demorou para que a moradora do Cinderela abrisse um sorriso. “Eu vejo você. Vou buscar uma bebida pra te acompanhar”. Socorro retribuiu ligando as luzes e tirando a camisa. Sentiam-se vivas uma na outra. Não tinham planejado nada daquilo. Assim como tudo que vale a pena.

Quando abril chegou, os encontros passaram a ser mais frequentes, mais íntimos, mais profundos. Num deles, após uma garrafa de vinho, decidiram viajar para Londres, onde aproveitariam todo o tempo perdido. Em outro, combinaram de roteirizar a história das duas sob a perspectiva de copos. No caso de Socorro, um copo de uísque. “O seu pode ser uma taça de champanhe”. E riam, testemunhando a loucura daquela troca entre duas almas e suas janelas. O clima começou a ficar estranho quando a mulher apareceu vestida misteriosamente numa capa preta. Era a primeira vez que a via coberta. Depois disso sumiu por dez dias. Quando a mulher reapareceu, estava com a mesma capa, mas uma expressão mais séria, mais triste. “Estava menor?” Na tentativa de chamar a atenção, vestiu uma capa parecida, idêntica. Sem sucesso. Pegou então o binóculo. Evitava usá-lo para não intimidar os vizinhos, mas dessa vez era diferente. Era perturbador demais. As duas então se encararam por algum tempo até que os horizontes fugiram e uma perna apareceu pendurada na varanda do 82. Segundos depois, um corpo precipitou-se e um som seco quebrou o prolongado silêncio.

“Já sei de onde te conheço!”.

As janelas do Cinderela foram então ocupadas por curiosos que miravam o corpo banhado numa poça de sangue estatelado na calçada. Uma voz desconhecida gritou:
– Socorro!
No chão, Dona Olga, a senhora do 82, se despedia da Terra. No 92, nenhuma sombra da mulher. “Já sei de onde conheço”.
Minutos depois chegou o necrotério.

Um comentário em “Procura-se Socorro – primeiras páginas

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  1. Ola, Cacau achei bem interessante as primeiras páginas, é denso. Tive que ler duas vezes pra ver se pegava toda a ideia, heheheh.

    Legal, parabéns.

    Max

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