Esse livro é massa, mas não recomendo em 2020

Reli Contraponto. E por ocasião dos 250 anos de Beethoven e à falta de sono, rascunho aqui sobre esta feliz coincidência. No romance de Aldous Huxley, o personagem Maurice Spandrell busca desesperadamente a prova da existência divina. E invoca Mark e Mary Rampion como testemunhas da “prova de todas as coisas”: o Quarteto n. 15, em lá menor, op. 132.

“A única prova de que existe Deus, a alma, a bondade. A única, porque Beethoven foi o único homem que soube dar expressão ao seu conhecimento”, defende Maurice. Aliás, vamos todos escutar, acender uma vela e rezar para que o personagem tenha razão. Quem sabe Deus escuta.

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Voltando ao livro…

– Bem, cá estamos – disse Rampion, quando Spandrell abriu a porta para o casal na tarde do dia seguinte. – Onde está Beethoven? Onde está a famosa prova da existência de Deus e da superioridade moral de Jesus?

A descrição de Huxley é sublime:

Redobrara a rapidez da melodia lenta; os contornos se lhe tinham tornado mais nítidos e mais definidos; uma parte interna voltava a repisar com insistência uma frase palpitante . Dir-se-ia que o céu se tornara de súbito, impossivelmente mais celeste, passando da perfeição realizada para uma perfeição ainda mais profunda e mais absoluta. A paz inefável persistia; mas não era a paz da convalescença e da passividade. Ela vibrava, era viva, parecia crescer e intensificar-se, transformava-se numa calma ativa, numa serenidade quase apaixonada. O paradoxo milagroso da vida exterior e do repouso eterno estava musicalmente realizado.

É quando Spandrell suspira e fecha os olhos. Sabe que vai morrer. Não comentarei essa parte, mas reproduzirei o final do capítulo, uma das melhores construções que já li.

Notas longas, um acorde, repetido, prolongado, brilhante e puro. De súbito, se acabou a música; ficou apenas o arranhar da agulha sobre o disco que girava.

Tchau.

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