A criança que se encantou pelo Bruno Covas

Estou ensinando uma criança de seis anos a ler, o Gui. Com as escolas públicas fechadas, ele vem uma vez por semana e nós fazemos diversas atividades juntos. No último encontro, Guilherme chegou com um flyer do Bruno Covas.
– Vou votar no 45, PROFÊ!
– E desde quando criança vota, Guilherme?
Silêncio.
– Na sua idade, eu também ‘votava’ no 45 e ainda cantava ‘levanta a mão, o Brasil precisa muito de você”.
Foi quando me toquei que estava fazendo o que mais odiava: usando aquele tom de quem sabe tudo da vida. Mudei o tom.
– Mas porque o Bruno Covas?
– Porque eu gosto dele.

Por mim, assunto encerrado. Crianças não fingem e a resposta foi boa. “Porque eu gosto dele”. E nada mais ridículo do que adulto, que não passa de uma besta, querendo pagar de “sabichão”.
Pois bem. Fiz um jogo, no papel mesmo, onde o Gui avançava casas sempre que completava uma tarefa. O objetivo era alcançar 50 pontos.
– 50, não. 45.
– Tá bem, Gui. Então vou diminuir cinco pontos aqui dessa atividade. É por causa do Covas?
– Sim

O Gui já sabe todas as letras – ainda confunde C com S – e na última aula fiz um “o que é o que é”. Exemplo: fica no céu, às vezes cheia, parece uma bola cinza”. Daí ele procurava as letras e respondia com elas. Claro, dei umas pistas. Começa com “L”. Fim da aula, Gui chegou aos seus 45 pontos.

Passei há pouco para beber água e lá estava o Gui, no celular, e o horário eleitoral na televisão.

– Olha aí o Boulos, Gui. Porque você não gosta dele?
– Porque ele é chato e só aparece nessa casa.
Entra, então, o Bruno Covas. O tema: crianças.
– Por isso que vou votar nele!
– E se você tivesse um partido, qual seria o nome?
– Não sei.

Concluo a crônica com a ideia de propor uma nova brincadeira semana que vem. Brincar de eleição. Gui será do Partido Não Sei. É possível que ele proponha aulas mais curtas e o cancelamento das letras C e S. Ou simplesmente me ache uma idiota e proponha que esta eleição de brincadeira seja cancelada.

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