A menos lida da internet

A este blog acrescento hoje uma editoria de crônicas. Não espere textos sobre o cenário político ou opiniões relativizando esquerda, direita, frente ampla, centro ou nota de duzentos reais. Não falarei de kit covid, kit gay, novo normal, fake news e cortina de fumaça. Ofereço aqui contos curtos, de ficção – versões de uma narrativa maior. E ofereço agora essas croniquetas, baseadas em pensamentos rápidos, um diálogo que escutei, uma frase – coisas que vou acumulando no NOTAS pra desenvolver depois, mas caem no limbo. Exemplo aleatório:

Mas quero falar de Socorro, A protagonista…

Do romance inacabado, incerto, sem nome definido, data de entrega e muito menos editora. Tenho três certezas.

A primeira: chega um ponto na ficção que o autor não controla mais a história. Em algum momento ela realmente sai do controle. Um distanciamento importante.

A segunda: a história sobre os efeitos do isolamento em Socorro, a “anti-heroína que não é ruim, mas mata pessoas”, será publicada. Com ou sem editora. Mas com editora fica tudo mais bonito etc. Então estamos aí…

A terceira: é difícil criar uma personagem feminina de caráter ‘questionável’, que vai contra a corrente, que comete delitos, cheia de vícios e crises existenciais que deixariam qualquer Don Draper no chinelo. Porque?!

AVANÇO COM UMA INDIRETA…

Para os que apontam Capitu como a maior anti-heroína da literatura brasileira, informo que vocês estão lendo pouco desde o colegial. Capitu está ali para alimentar a crise de Bentinho. É a tragédia particular de Bentinho que está no centro. Mas existe uma velha guarda literária – formada por homens acadêmicos, conservadores, consumidos por aspectos estilísticos e criatividade zero – que não pode ser questionada. E a interpretação de quem vos escreve é que essa é uma ideia ridícula alimentada pela vaidade de quem adora impressionar círculos de escritores.

APROVEITO A DEIXA PARA…

Falar brevemente de autoras e personagens femininas. Estou me auto-referenciando etc. Peço perdão. Mas será que perguntaram para Camus se ele era sociopata como o personagem criado para O Estrangeiro? Claro que não.

Em uma entrevista que não é nova, porém clássica, Claire Messud, autora de “The Woman Upstairs,” deu uma aula sobre a relação criadora/criatura. “Você seria amiga de Nora?”, perguntou um jornalista. A resposta:

“Pelo amor de Deus, que tipo de pergunta é essa? Você gostaria de ser amigo de Humbert Humbert?”. Aqui faço um mansplaining rápido para relembrar que Humbert Humbert é o personagem criado por Vladimir Nabokov para Lolita.

E a conclusão da surra:

“Lemos para encontrar vida em todas as suas possibilidades. A questão relevante não é ‘este é um amigo potencial para mim?’, mas ‘este personagem existe?’ ”

Encerro aqui. Se procuro cliques? Isso é super 2008. Alguém me lê aqui? Claro que não. O ano é 2020. Fim da primeira crônica do blog sem nome.

Cacau.

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