Socorro, primeira pessoa

Janela do décimo andar. Decidi que viveria muito tempo ali. Provavelmente a vida toda. Da janela eu exercia um certo tipo de superioridade dos homens que eu observava através das outras janelas do condomínio em frente. E também dos que passavam pela calçada. Era um posição acima, rara, de quem observa os outros como figuras menores. Lá de baixo, ninguém me via. Eu sempre soube que não valia muita coisa. Que era invisível. Na janela do 44, Dona Olga assistia novela. O sétimo andar continuava vazio. E as minhas louças sujas acumuladas.

Uma vez tive a certeza de ver meu pai, vestindo um shorts, sem camisa, fumando num parapeito. Foi uma tarde regada a uísque.

No 54, um grupo de quatro senhores, mais de trinta anos de idade, bebia álcool. Eles se ajudavam. E do nada eu senti medo. Alguns chamam de sexto sentido. Passei a observá-los numa frequência maior.

Até que, numa noite de sábado, uma mulher visitou o grupo. Vou chamá-la de Marlene. Era a primeira vez que eu a via ali. Vez ou outra encostava na janela para acender um cigarro e eu partia então para um ponto cego, pra que não visse minha sombra. Sou invisível, mas observadores de janelas tem um dom sobrenatural de encontrar semelhantes. Enquanto fumava, os senhores miravam seu corpo, risadinhas. Queriam vê-la pelada.

Horas depois, a cortina da janela 54 cobriu minha vista. Apenas sombras de uma noite movimentada, acompanhada depois por um vazio que acabou em algum outro espaço do apartamento.

Madruguei. Em torno das 10h, Marlene apareceu na portaria. Esperava um táxi. A mão direita no coração. O cabelo despenteado. Claramente desnorteada, demorou para abrir a porta do automóvel. Senti um alívio por vê-la viva. Haveria outra versão diferente da que criei na minha mente? Provável. Puxei o binóculo e anotei a placa do táxi. Mas independente disso, foi a partir desse dia que passei a dedicar algumas horas na deep web. Em busca de uma arma.

Continuação não-linear de Socorro, a última lúcida. Perspectiva da personagem.

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