Perdão por não te agredir

Acordou cheia de energia, substituiu o pijama por uma vestido e desceu para o mercado. Precisava respirar um ar menos oficial, sentir um ventinho. E queria desejar bom dia.

No elevador, encontrou um rapaz de máscara.
– BOM DIA.
Na portaria, foi ainda mais incisiva.
– BOM DIA, ROBERTO.
– Bom dia, Socorro.

Encarou a rua. Seis rostos brancos. Uma britadeira. E um cachorro com uma placa pendurada onde lia-se: “Vermifugado e pronto para adoção”. Na fila do mercado, calculou que o homem à sua frente estava a um metro de distância.
– Com licença, mas o senhor está descumprindo as regras de distanciamento.

Ele deu três passos e Socorro se frustrou. Estava com a energia lá em cima, disposta a provocar qualquer tipo de movimentação.

– Mas afinal o senhor saiu apenas para comprar um miojo?

Estava incomodando. Sendo inconveniente. Um observador anônimo concluiria que Socorro agia como um pássaro fora da gaiola que desaprendera a voar.
Logo ela, uma moça animada, cheia de paixões, atrás de bate-boca com espíritos medíocres em filas. Mas o fato é que não sabia mais como se comportar fora de casa e saiu correndo do mercado com as mãos vazias.

Na televisão, um banco dizia ‘Não deixe a vida pra depois’. Uma empresa de telecomunicação afirmava’: Vai passar’. Com uma trilha impactante, salsichas e outros produtos do ramo alimentício gritavam: ‘Juntos vamos vencer’. E o dia correu assim. Não valeria a pena descrevê-lo, a não ser pelo próximo incidente.
Vamos a ele.

II
Era chegada a hora da videoconferência, também conhecida por reunião remota ou call. “Que vida chata. Nada acontece”. Movida por um sentimento de maldade, calculou que aquele seria o grande momento do seu dia. “Será minha vingança”. Na tela do computador, cinco participantes indicavam tédio, mas fingiam resignação.

– Mário, Ricardo, Eunice, Marlene, Ernesto, Socorro, boa tarde. Vocês já devem saber o que está acontecendo, o motivo desse papo. Vou compartilhar minha tela para que todos vejam…

Num estado de agitação considerável, Socorro interrompeu com um grito.
– Ver o quê? Existe algo nesse país que mereça ser visto?

Seu gestor, que atendia por Fidel, sentiu-se ultrajado.
– Ora, hoje mesmo um rapaz tentou tirar uma selfie com uma cobra naja e quase morreu envenenado. Muitas coisas acontecem. Mas vamos ao que interessa. Uma estrela do cinema topou fazer nossos anúncios de cremes de rejuvenescimento.

De longe, Socorro escutava uma sanfona tocando Ave-Maria. Começou a se remexer.

– Gostaria de falar algo, Socorro?
– Sim. Gostaria de dizer que coisas importantes estão acontecendo e vocês estão aí falando de cremes.

A frase inesperada chamou a atenção dos colegas, que riram de nervoso. Ela continuou.
– Vocês não tem a menor imaginação. São rídiculos.
E disparou contra Marlene.
– Temos aqui a famosa grati-luz. Terminará a reunião agradecendo que estamos todos com saúde, que temos sorte, que devemos nos apegar a isso.

Depois partiu para Ricardo.
– Também contamos com a presença ‘marcante’ do hiper-realista. Em alguns segundos justificará os anúncios afirmando que isso não vai acabar tão cedo e que os negócios não podem parar. Vida real blábláblá.

Estava efetivamente disposta a romper com toda e qualquer diplomacia.

– E você, querido chefe, que mente por aí dizendo que votou num tal de Amoedo, mas apertou o 17 na solidão da urna. Assume! Tu é bolsominion, não é? Bolsiminion no duro?
Ao passo que ele admitiu.
– Duríssimo.

Socorro tinha ouvido falado da loucura, mas compreendera, naquele segundo, que estava diante dela. O sucesso do seu escandâlo não poderia ser mais completo.

– Por sua causa, desgraçado. É cachaça, Rivotril e desespero.

E levantou, louca, os olhos injetados, pronta para invadir a call e encher o chefe de porrada. Do outro lado, ele gritava: “respeite minha posição política”.

Corta para a realidade, quando o gestor, finalmente, anuncia o próximo passo.
– Então vamos organizar as agendas e remarcamos o segundo papo pra semana que vem.
– Obrigada.
– Obrigado, gente.
– Valeu. Até lá.

Na rua, o vento bagunçava o cabelo de uma mulher. No apartamento em frente, uma criança fugia de chineladas. E a sanfona Ave-Maria chegava ao fim eliminando todo o ar mágico que Socorro criara para a cena.

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