Memórias de um copo

Algumas paixões são misteriosas. A que eu sinto por Socorro é a que mais me intriga. Eu sou um copo sujo e estou abandonado há dias num canto da pia em meio a restos de comida e talheres de toda espécie. Nós estamos ali, apenas observando as coisas como espectadoras de fora.

coposujoOcorre que aquela altura Socorro está numa situação muito estranha. Segundo minhas fontes, desmaiada no banheiro. Algumas conseguiram entrar, as tapaués, e enviaram a informação. Não sei como entraram e também não quero saber dos planos da louça suja. Papo mais chato… cheias de estratégias e cálculos. Quero pensar em Socorro.

Até porque, pessoalmente, não me incomodo com a sujeira. Me dão um certo ar de intimidade. E o amor é meio sujo mesmo. Mas não quero pensar em sujeira agora. Quero pensar em Socorro. Na verdade estou mais preocupado com a possibilidade de nunca mais encontrá-la.

Eu penso nela o tempo inteiro.

Nos dias normais, quando acordava disposta, cheia de sonhos. E me tomava de jeito, dando goles de água fria. No final soltava um gemidinho.

Depois das 20h, quando colocava uma música e me chamava para outro encontro. Me completava com gelo e ficávamos horas curtindo memes.

No outro dia, com bafo de ressaca, quando me enchia de coca-cola e jogava duas neosaldinas pra dentro. Chorava um pouquinho. Dormia. Observava a janela. Mas não me largava.

Em alguns momentos parecia lindíssima. Em outros, muito comum. Socorro era indecifrável. Mas muito óbvia também. Tinha sua rotina. Certa vez contou que queria ter um filho para chamar de Stanlei – com i mesmo. Ou Ernesto. Para gritar “Ernestimmmmm, volta pra dentro”.

Voltando à pia, é bom deixar claro que giramos em volta de Socorro. Fora isso, não tinha prato, colher, panela ou garfo que competisse comigo ali. Também compartilhamos o fato de estarmos sujas. A diferença é que eu sou a Terra. E só eu penso nela o tempo inteiro.

Continua…

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