O Banho de Socorro

Enquanto a louça era tomada pelo complexo de rejeição, Socorro estava de pé no banheiro. Era dia de banho. E eram raros. Ela estava esgotada, mortalmente esgotada, e tão imunda quanto a pia da cozinha.

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Olhava os sabonetes, as toalhas, o xampu, e sentia ranço. Esse sentimento em relação à sujeira estava ficando um pouco exagerado. Tinha um ódio especial a quem quer que fosse muito limpo, a quem dizia tomar vários banhos por dia, a quem estava sempre cheiroso.

Tentou se convencer de que, se fosse milionária, escreveriam na sua biografia que o apego à sujeira era apenas uma excentricidade. “Não vou me cobrar tanto, estão todos doidos. Sou a mais lúcida”. Tão lúcida que estava disposta a considerar tudo isso uma perturbação mental fulgaz. Se apegou a Heráclito numa nova interpretação da máxima de que “não nos banhamos duas vezes no mesmo rio”. Aquele seria um banho diferente. Libertador.

E daí tirou a roupa. Abriu a torneira. E deu um passo como quem caminha para o sacrifício. A água molhou seu corpo, as gotas vibrando escorriam pelos cabelos.  “Achei que seria pior”.

Pobre, Socorro. Não custou a sentir que algo desconhecido puxava o seu pé. Vinha do ralo. Era aquela sensação sinistra que nos acomete na infância, quando uma mão te puxa, mas não existe nada debaixo da cama.

Ela precipitou-se para fora do chuveiro numa grande agonia. O ralo continuava igual, meio entupido de cabelo. Escutava vozes que vinham da cozinha. “Socorro, te amamos”. Mas foi rápido; em breve não ouviu mais nada pois os sentidos começaram a faltar e uma tontura tomou conta do seu corpo. Os azulejos do banheiro formavam imagens desconexas, com tapaués saltando sujas de molho cor de sangue. Saltou para agarrá-las e mergulhou na escuridão.

Desmaiara.

E daí veio um grande intervalo onde Socorro caiu numa inexistência mais ou menos consciente.  Uma espécie de sonho lúcido. Afinal, era a última lúcida do mundo. De repente um som: “Quero fazer amor contigo”. Quis gritar, a voz não saiu. “Vou dar um banho em você enquanto fazemos amor”. De onde vinha a voz permanece um mistério. Sombras de alguma memória? A voz, de certa forma, reanimou seu corpo. O batimento do coração acelerou. Ansiava abrir os olhos, mas não ousava. Tinha medo das tapaués sangrentas. Continuou deitada no chão do banheiro, imóvel. Na desordem da sua imaginação, sabia que não estava morta.

Tal desmaio dificilmente interessaria um mundo onde os habitantes agridem enfermeiras, buzinam na frente de hospitais e vão às ruas desafiar um vírus mortal. A louça suja, no entanto, considerou extraordinária a descoberta de um meio sobrenatural de comunicação com Socorro. Compartilhavam a mesma sensação; a de quem tenta gritar durante um pesadelo.

Através dos azulejos, as tapaués aguardam ansiosas para serem ouvidas.

Continua…

Parte I.