Diário da louça suja – Parte I

Algo perigoso pairava no ar. Estavam todas irritadas, tomadas pelo medo de viver até o fim de suas vidas numa pia imunda. Pois ao contrário do que os humanos pensam, as louças escutam tudo, não existe inconsciência no mundo das louças.

– O problema é que não podemos gritar. E estamos nesse pesadelo há dias – lamentou a frigideira Teflona.
– Por gentileza, não fale comigo. Eu não te conheço – informou Le Creusete.
O copo americano, dominador e enérgico, tentou aliviar o clima mudando de assunto.
– Quem viu Socorro pela última vez?
– Eu – respondeu a taça de vinho.
– Seria ela tão insensível assim? Nos abandonar aqui desse jeito?

Apesar de magoada, a taça ponderou. Já tinha visto Socorro chorando diversas vezes e garantia que, após as crises histéricas, ela voltava plácida e encantadora como sempre.

– Milhares de vezes…
– Sim. Depois ela fica transformando as coisas que vê da janela em poesia e tudo fica bem.
– Mas sumir assim? Nos abandonar como lixo, acumuladas, misturadas com plásticos? – continuou Creuzete – A última vez que eu vi estava de máscara. Distante e de máscara.
– Contra os sentimentos não se pode fazer nada. Não temos poder sobre eles. Se não cuida de nós, significa que não gosta de nós.
– Querida, repito que não te conheço – respondeu Creusete com seu habitual ar superior – Além de barata, ainda é simplista. A propósito, sabe o significado da palavra refeição? Do latim, refectio, formada por RE – de novo – mais ‘facere’. Logo, refeição refaz as forças de uma pessoa. Não existe função mais digna. Socorro depende de nós para viver.
– Mas e se ela morreu?

A colher se pronunciou.
– Na última vez que nos encontramos, Socorro enfiou a língua disposta a lamber todo o leite condensado que estava em mim. Parecia bastante viva.

Silêncio.

Foi quando o copo americano, confiante, puxou um discurso inflamado. Um convite. Um chamado. Um projeto de revolução. Uma proposta pacifista.
– A verdade é que cansei de esperar. Estou com vontade de mudar de vida.
A família de tapaués, todas sofridas, sujas de molho há dias, respondeu aos berros.
– Nós também.
Com a convicção profunda de um político, o copo retomou o discurso.
– Olha, de hoje em diante, não brigamos mais. Está decidido. Vamos tocar nossas vidas com paz no coração, como louças decentes que somos.
– Você acha que assim ela pode voltar? – questionou a colher.
– Podemos esperar, mas podemos também nos unir. Le Creusete, Teflona, colheres e facas, se organizarmos direitinho, alcançamos a torneira.
– E a saudade? – perguntou um prato de sobremesa que ainda não tinha aparecido na história.

E toda a louça, então, se comoveu.

Aquela sujeira toda não era nada. Sofriam com a ausência de Socorro. Das histórias engraçadas de Socorro. Dos absurdos de Socorro. Seria melhor esperar sua volta? Qual seria a decisão mais acertada? Por que Socorro sumiu assim?

Para essas perguntas, a louça suja ainda não tem resposta.

Continua…

Os comentários estão encerrados.

Blog no WordPress.com.

Acima ↑