O elevador do Esistenza

Desertos mentais instauram-se com bastante frequência durante as viagens de  elevador do condomínio ‘Esistenza’. É nesta caixa  absolutamente doida e irreal que Juscelino e Sebastião se encontram.

– Que dia é hoje?
– Não faço ideia. Quando vocês casam?
–  Na hora certa. Qual dieta você fez?
– A de não comer. As coisas vão melhorar quando?
– Sempre a partir de amanhã. Será que vai chover?
– Dizem que sim, mas dizem que não. Fez sua declaração?
– Dentro do prazo. Se não é pra casar porque namora com ela?
– Ações. A dieta funciona se eu comer de quinze em quinze minutos?
– Não sei. E se as coisas já melhoraram ontem?
– É possível. Chuvas não caem em junho por algum motivo?
– Quem sabe. A declaração chega a tempo depois do prazo?
– Preciso perguntar. E se você não entregar, o que será da sua vida?
– Não sei, mas se tiver a oportunidade cometerei suicídio e você?
– É uma opção. Hoje a noite?
– Combinado. No meu apartamento ou no seu?

É quando as portas se abrem para a garagem e, automaticamente, ambos voltam a se mover na mesma velocidade da Terra. Menos Fernanda, que embarca sozinha na viagem para o 17º. As portas se fecham e uma voz masculina, saída sabe-se lá de onde, invade o elevador.

– Tá linda, Nandinha. Um pouco pálida, mas não precisa ter medo, nunca te faria mal. Ao contrário de ti…

Primeiro andar.

– Não gostou de escutar minha voz ? Quis fazer uma surpresa e parece que funcionou. Tenho te observado bastante nos últimos dias. Você anda bem soltinha no Instagram , fazendo graça, querendo chamar a atenção. E interessante aquela sua ida ao teatro. “Não sou muito de teatro”, você dizia.

Quarto andar.

– Adoro essa marca do travesseiro na sua testa. São tantas câmeras e ângulos, você não tem ideia. Adoro vê-la dormir bêbada, torta, respirando álcool pela boca.

Sétimo andar.

– Para de me olhar assim, por favor. Será que piorei tanto? Tentei tomar um sol antes de aparecer aqui, mas não deu tempo. Continuo tão branco quanto no dia que você me matou. Ainda guardo a cena fresca na memória. Você atirando contra meu rosto, com o meu revólver.  O terno está um pouco gasto, mas foi você quem escolheu, não recorda?

Décimo primeiro.

– Você ainda é a única pessoa do mundo que me conhece. Foi exatamente por isso que atirou? Logo eu, um homem de bem! Meu tempo no elevador está acabando e você não me verá ou me escutará tão cedo.

Décimo sexto.

– No fundo, você salvou minha vida e agora é responsável por ela.

Num estrondo, as portas se abrem para o 17º. E Fernanda, assim como Juscelino e Sebastião, também volta a se mover na mesma velocidade da Terra.

 

*texto atualizado.

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