Socorro, a última lúcida

Socorro espiava da janela, que se diria jaula. Cinco minutinhos apenas, pois qualquer tempo perdido poderia ser uma chance de sonhar. E quem poderia dar conta dos sonhos de Socorro? Assim, ocupava seu tempo com numerosas obrigações rigorosamente baseadas em dez mandamentos estampados em locais estratégicos do apartamento.

• 1.º – Adorar a louça e lavá-la sobre todas as coisas.
• 2.º – Não usar o WhatsApp em vão.
• 3.º – Santificar os Pagodes e Lives de guarda.
• 4.º – Honrar doces e salgados.
• 5.º – Não enviar nudes
• 6.º – Guardar castidade nos tweets e nos Stories.
• 7.º – Não cancelar pessoas
• 8.º – Não comentar na página do G1
• 9.º – Guardar prints nos pensamentos.
• 10.º- Não stalkear as redes sociais alheias.

Mas cinco minutos não era pouca coisa para uma mente fértil. E ali, da janela, Socorro chegou à surpreendente conclusão de que o mundo enlouquecia. Absolutamente todas as pessoas estavam doidas. Menos ela.

– Sou a única lúcida do país.

Desejava acelerar a narrativa que criava na sua mente. Acelerar a história. Porque o meio-tempo é cruel e as histórias são sempre melhores depois que passam. A história, naqueles cinco minutos, era a história de uma rachadura que atravessava o prédio da frente. Ia do primeiro ao último andar, como um raio, sem achatamento.

A Rachadura almoçou no apartamento 32. Feijoada. E depois seguiu para o 44, onde jogou baralho com Dona Olga. Dispensou o quinto andar, pois a Rachadura estava focada em ficar sóbria e a maconha ali estava por cima. No sexto, cumprimentou as crianças. No sétimo, não conseguiu entrar. Todos os apartamentos ali estavam vazios. Foi onde conheceu Buraco. Paixão à primeira vista. Sensação de soco no peito, calor e frio. O Buraco era da cor do olho do gato que vira num quadro. “Foi pintado por um tal de Paul Klee”, explicara certa vez a moradora do 21.

Apaixonada, a Rachadura achou por bem stalkear as redes sociais do Buraco. E percebeu que ele era profundo demais. Sem fim. Interessante. Voltou para o 44 em busca de conselho.

– Dona Olga, estou pensando em propor namoro para o Buraco…
– Mas porque você quer ficar com um Buraco, se você ainda é uma Rachadura?
– A senhora não sabe como é viver como Rachadura, atravessar essa vida como Rachadura. Talvez eu me sinta mais viva com Buraco, que não tem mais pra onde ir.
– O Buraco sempre pode ser mais fundo, minha filha.
– Daí é o Abismo, outro que também desperta meu interesse…

Assunto encerrado, a Rachadura se recolheu para pensar. De tédio esse namoro nunca morreria, pois se depois do Buraco vem o Abismo, imagina quando cruzasse com o Precipício?! Seria feliz de algum modo.

E foi assim que Socorro, a última lúcida do país, viu o relógio mastigar seus cinco minutos. E voltou para sua lista de atividades. E continuou. Juntando na imaginação a rachadura com o buraco, decifrando o que poderia sair dali. E com a sensação de que, apesar das jaulas, e de tanta gente doida, as realidades são variadas demais.

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